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Mensagens

Espaços vagos

O luto não se faz só pelas pessoas que nos faltam e que se vão pelo fim da vida. Faz-se também e amiúde por aquilo que vamos perdendo: a paz, a realização pessoal, os sítios em que nos sentimos bem e que temos de abandonar, os ambientes, os cheiros. Perdemos bocados de nós à medida que vamos ganhando outros ou transmutando os que tínhamos.

Há uma necessidade de luto não só na morte, mas na vida. É preciso o silêncio, a auto-comiseração, a dor profunda que nos permite emergir renovados e abertos ao que vem a seguir. Se não deixamos ir aquilo que nos sai da pele e da alma, dificilmente conseguimos arranjar espaço para aquilo que se segue. Somos limitados em espaço, temos pouco terreno para muitas coisas e enchemos o que temos com aquilo que nos preenche de verdade.
Ao contrário do que nos parece, a perda faz-nos bem. Faz-nos evoluir, torna-nos mais fortes e permite-nos valorizar tanto o que se foi, quanto o que virá. Só os espaços vagos se podem ocupar e se não os ocupamos com aquilo qu…
Mensagens recentes

Boas notas

O meu filho está habituado a ter boas notas sem se esforçar muito. A estudar praticamente nada, costuma tirar oitentas e noventas por cento nos testes. Nunca andei atrás dele para estudar, porque nunca foi preciso. Ele sempre geriu o tempo de estudo como bem entendeu e a minha função (e a do pai) foi sempre só lembrar se tinha algum teste no dia seguinte. Ele foi-se habituando a isto e nós também, por isso nunca nos preocupámos muito com as notas, nem lhe exigimos grande coisa em relação a elas.

Na semana passada, chegou a casa todo chateado porque teve as notas mais baixas da sua vida. Não chegou a ter negativas, mas as positivas não estavam muito longe disso.
Disse-me, indignado: - Mas como é que isto foi acontecer?! - É normal, não estudas quase nada e a matéria começa a ser mais - respondo, e pergunto a seguir - Tens estado com atenção nas aulas? - Nem por isso... Tenho falado um bocado na aulas... - E essas conversas pelo menos têm sido interessantes?  - Mais ou menos. Às vezes s…

Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…

Afectos e machismo

Temos um PR adorado pelos seus abraços e beijinhos;Temos um acórdão do Tribunal da Relação do Porto que cita a Bíblia para desculpar a violência doméstica exercida sobre uma mulher adúltera.

Proponho o seguinte exercício: - Imaginar que o PR era uma mulher que investia em abraços e beijinhos aos populares; - Imaginar que o acórdão desculpava a violência doméstica exercida sobre um homem adúltero.
Que resultado obteríamos deste exercício? Calculo que surgiria a teoria de que a PR seria uma promíscua, carente de afectos, ou que se estaria a "atirar" a todo homem que lhe aparecesse à frente...Calculo que o homem agredido seria achincalhado por permitir sofrer violência doméstica por parte de uma mulher e que, em simultâneo, seria perdoado do adultério, tanto por ter uma mulher violenta, quanto por ter "carne fraca"... Enquanto condicionarmos a nossa avaliação das situações pelos géneros dos intervenientes, estaremos sempre em desigualdade. Enquanto não conseguirmos separar c…

O Pintas

Estudei Gestão Equina numa terra no centro de Portugal.
A escola dividia-se entre uma antiga escola, no centro da aldeia, convertida em internato masculino e salas de aulas e uma herdade a uns setecentos ou oitocentos metros já quase fora da localidade.
Os alunos tinham aulas ora na escola, ora na herdade e seguiam geralmente a pé de um lado para o outro.
Um dia, o Pintas apareceu por lá (já não me lembro bem onde o encontrámos pela primeira vez), um cão talvez arraçado de dálmata, pois era branco com pintas negras.
Deram-lhe o nome de "Pintas", mas havia quem o chamasse de "Beethoven". Na verdade, podiam chamá-lo como quisessem que o cão reconhecia quando a conversa era com ele.
O Pintas fazia o caminho herdade/escola e escola/herdade vezes sem conta. Penso que a intenção era acompanhar os seus amigos preferidos no caminho que separava as duas instalações escolares... Seguia a nosso lado como se fosse mais um aluno. Deixava-nos na herdade e seguia de novo para a …

Ensinar é estimular a curiosidade